Sente um pigarro que não passa, tosse seca, rouquidão ou aquela sensação de bola na garganta e não descobre a causa? Esses sinais podem ser de refluxo laringofaríngeo, também chamado de refluxo silencioso, quando o conteúdo do estômago sobe até a garganta e a laringe e irrita esses tecidos, muitas vezes sem provocar a azia clássica.

O que é o refluxo laringofaríngeo

O refluxo laringofaríngeo (RLF) acontece quando o conteúdo do estômago, incluindo o ácido e outras substâncias digestivas, sobe pelo esôfago e chega até a região da garganta (faringe) e da laringe, onde ficam as cordas vocais. Diferente do estômago, que tem uma parede preparada para o ambiente ácido, os tecidos da garganta e da laringe são delicados e se irritam com facilidade. Por isso, mesmo pequenas quantidades de refluxo que chegam ali podem causar sintomas incômodos e persistentes.

Ele é frequentemente chamado de refluxo silencioso porque a maioria das pessoas não sente a azia ou a queimação no peito que costumamos associar ao refluxo. Os sintomas aparecem na garganta e na voz, o que faz muita gente demorar a procurar ajuda ou tratar o problema como se fosse apenas uma irritação passageira.

Sintomas mais comuns

Os sinais do refluxo laringofaríngeo costumam ser vagos e podem se confundir com outras condições. Entre os mais frequentes estão:

  • Pigarro constante e vontade de limpar a garganta o tempo todo;
  • Sensação de bola ou nó na garganta (chamada de globus), sem que exista realmente algo ali;
  • Tosse seca crônica, principalmente ao deitar ou ao acordar;
  • Rouquidão ou voz que varia ao longo do dia;
  • Garganta que arde, arranha ou parece seca;
  • Muco em excesso ou sensação de catarro escorrendo pela garganta;
  • Dificuldade ou desconforto ao engolir.

Esses sintomas tendem a piorar após refeições grandes, à noite ou ao deitar logo depois de comer. Como são pouco específicos, é comum que a pessoa passe meses tratando uma suposta alergia ou sinusite antes de o diagnóstico correto ser feito.

A diferença para a azia clássica

Na doença do refluxo gastroesofágico (a azia clássica), o ácido sobe e provoca a queimação típica atrás do peito e o gosto amargo na boca. Já no refluxo laringofaríngeo, o conteúdo chega mais alto, atinge a garganta e a laringe e provoca sintomas ali, muitas vezes sem nenhuma azia. Uma pessoa pode ter refluxo silencioso e nunca ter sentido queimação no peito na vida.

Nem todo refluxo dá azia. Quando o incômodo é na garganta e na voz, e não no peito, o otorrinolaringologista costuma ser o profissional mais indicado para investigar.

Causas e fatores que favorecem

O refluxo laringofaríngeo tem origem no funcionamento das válvulas que separam o esôfago do estômago e da garganta. Quando esses mecanismos não fecham de forma adequada, o conteúdo consegue subir. Alguns fatores aumentam a chance de isso acontecer:

  • Refeições volumosas, muito gordurosas, condimentadas ou ácidas;
  • Comer e deitar em seguida, ou fazer refeições tarde da noite;
  • Excesso de peso, que aumenta a pressão sobre o abdome;
  • Consumo de bebidas alcoólicas, café e refrigerantes;
  • Tabagismo;
  • Estresse e alterações na rotina alimentar.

Vale lembrar que essas causas variam de pessoa para pessoa, e identificar o que mais contribui em cada caso faz parte da avaliação individualizada.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa com uma conversa detalhada sobre os sintomas, os hábitos alimentares e a rotina. Em seguida, o otorrino pode realizar a videolaringoscopia, um exame simples de consultório em que uma câmera fina examina a garganta e a laringe. Nele, é possível observar sinais de irritação nos tecidos, como vermelhidão e inchaço, que sugerem a presença do refluxo.

Como os sintomas se sobrepõem a outras condições, parte da investigação é justamente descartar causas semelhantes, como a rouquidão por outros motivos, a sinusite ou a inflamação de amígdalas e adenoide. Em alguns casos, o otorrino pode encaminhar para avaliação complementar com o gastroenterologista.

Tratamento

O tratamento do refluxo laringofaríngeo costuma combinar mudanças de estilo de vida com acompanhamento médico. As orientações mais comuns incluem ajustar a alimentação, evitar deitar logo após comer, fazer refeições menores, reduzir peso quando indicado e diminuir o consumo de álcool, café e cigarro. Elevar a cabeceira da cama também pode ajudar a reduzir o refluxo noturno.

Quando necessário, o médico pode indicar medicação para controlar o refluxo, sempre de forma personalizada, ajustada ao caso e reavaliada ao longo do tempo. Não existe uma receita única: o plano é montado de acordo com a intensidade dos sintomas, os achados do exame e o perfil de cada paciente. A melhora geralmente é gradual, e a paciência com o processo faz parte do tratamento.

Quando procurar o otorrino

Se você convive com pigarro, tosse seca, rouquidão ou sensação de bola na garganta que não melhoram após algumas semanas, vale procurar um otorrinolaringologista. Sintomas persistentes na garganta e na voz merecem avaliação, tanto para confirmar o refluxo laringofaríngeo quanto para descartar outras causas. Sinais de alerta como dificuldade importante para engolir, dor ao engolir, emagrecimento sem explicação ou rouquidão que dura mais de duas a três semanas devem ser avaliados sem demora. Um diagnóstico correto evita meses de tratamentos equivocados e orienta o cuidado certo para o seu caso.